quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Adolescentes e “envelhescentes”: eles são tão diferentes assim?

Traçar um perfil dos adolescentes não é tarefa das mais difíceis. Trata-se de um período de transição, afinal, é uma preparação para a maturidade. É aquele período em que o jovem se sente perdido, justamente pelo fato de não saber se é criança ou adulto.

Os adolescentes são donos de hábitos estranhos, que são típicos da idade. Adoram deitar e acordar tarde. Isso sem falar nos tênis e nos cabelos descolados. São irritadiços, enervam-se com pouco. Acham que já sabem de tudo e não querem palpites nas suas vidas.

Os adolescentes não entendem os adultos e acham que ninguém os entende. “Ninguém me entende” é uma frase típica dos adolescentes. Essa relação conturbada com os pais faz parte da idade.

Entretanto, adolescentes e “envelhescentes”, aqueles que estão entre os 45 e 65, não são tão diferentes.

Assim como os adolescentes, os “envelhescentes” também gostam de meninas de 20 anos.

Os adolescentes não sabem o que vai acontecer com eles daqui a 20 anos. Os “envelhescentes” até evitam pensar nisso.

Ambos bebem escondido.

Os adolescentes fumam maconha escondido dos pais. Por outro lado, os “envelhescentes” fumam maconha escondido dos filhos. Como você pode ver, adolescentes e “envelhescentes” têm lá suas semelhanças.

A onipotência dos adolescentes beira a vulnerabilidade. Acreditam ser imunes a qualquer perigo e colocam em risco seu futuro e sua vida. Os adolescentes querem passar a impressão de que são fortes, destemidos, competentes e sábios. Há, portanto, a construção de uma imagem de perfeição. O resultado disso é a onipotência, isto é, o jovem acha que sabe de tudo e que pode tudo. Mas aquelas incertezas e aqueles conflitos internos ainda existem. O que acontece é que os adolescentes vestem a couraça da onipotência.

Alguns jovens (iluminados e filhos dos deuses, diga-se de passagem) se dão ao luxo de fazer sexo sem camisinha, mesmo sabendo do risco de contrair AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, andam de motocicleta sem capacete depois de ingerir bebidas alcoólicas. E não ficam intimidados, inibidos.

Entretanto, esses jovens (já não tão jovens) acordam um dia e percebem que não estão mais em “estado de graça”. O mundo fica com um tom cinzento. Mas eles percebem que são vulneráveis. Faz parte do amadurecimento.

Por fim, a adolescência é uma fase muito difícil na vida. Os adolescentes devem se comportar como adultos sem ter a experiência necessária para isso. Devem mostrar autoconfiança sexual, apesar da total inexperiência. Talvez seja a época mais complicada de nossas vidas. Mas é a mais especial. As descobertas dessa fase falam por si só.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Da porta do inferno ao topo do mundo

Em outubro de 2002, a situação do Internacional era crítica. O mesmo Internacional que conquistou o Brasil três vezes na década de 70. O Internacional do “Rolo Compressor” dos anos 40. O Internacional que teve Falcão e Figueroa. Atolado em dívidas e sem títulos, o Colorado estava quase caindo para a série B. Se salvou apenas na última rodada, contra o Paysandu. Era uma situação pré-falimentar.

Com o clube em crise, o presidente do clube, Fernando Carvalho, deve ter ficado em dúvida sobre a decisão que havia tomado alguns meses antes. Ele assumiu, no início de 2002, a presidência do Internacional. Fernando Carvalho queria que o Internacional voltasse a ser grande. Engana-se quem pensa que ele, por estar em um meio que envolve paixão e pressão, apelou para grandes contratações. A torcida, cansada dos resultados ruins do clube, exigia grandes jogadores. Ciente das dificuldades do Inter, Carvalho não caiu em tentação. Apostou nas divisões de base e em desconhecidos. Além disso, percebeu que o Colorado, para não fechar o ano no vermelho, precisava vender dois ou três jogadores por temporada.

Em 2003, o Brasil viu o surgimento de dois futuros craques: Nilmar e Daniel Carvalho. Enquanto isso, Fernando Carvalho viu a necessidade de trabalhar com a auto-estima do torcedor colorado. Por conta da má fase do clube, muitos torcedores estavam começando a abandonar o barco. A direção do Inter, preocupada com a situação, quis reverter essa situação. Foi então que Fernando Carvalho entrou em contato com a E21, agência que iniciou uma campanha publicitária para chamar o torcedor colorado para cada jogo.

A diretoria tinha o objetivo de modernizar o Beira-Rio, até para atrair mais torcedores e, é claro, tornar o estádio uma fonte de receitas sólida e constante. Os resultados foram surpreendentes. Em 2001, o Inter tinha pouco mais de 8 mil sócios. Atualmente, são cerca de 44 mil sócios, que contribuem com cerca de 20 reais. Por esse valor, o associado pode entrar no Beira-Rio em todos os jogos e votar nas eleições do clube. Há ainda uma série de promoções e vantagens.

Voltando ao futebol, pode-se dizer que o Internacional teve apenas dois técnicos nos últimos anos: Muricy Ramalho, comandante do time na boa campanha no Brasileiro de 2005, e Abel Braga. Os resultados alcançados nos últimos anos estão diretamente relacionados à confiança que a diretoria colorada dá aos técnicos e jogadores. Os dirigentes se preocupam com cada detalhe. Prova disso é que o Inter é o único clube brasileiro que tem uma pessoa contratada para receber jogadores. Trata-se de Patrícia Lague, que ajuda os jogadores e suas famílias de diferentes formas. Foi assim com Hidalgo, que recebeu a ajuda de Patrícia para encontrar uma escola para seus filhos com a mesma linha da escola anterior. Ela também ajudou Fernandão, que, logo quando chegou ao clube, precisou de ajuda para internar um de seus filhos. Na ocasião, Fernandão estava viajando e Patrícia foi uma das responsáveis pela internação. Por todas essas razões, o clube gaúcho voltou a ser atraente para jogadores.

Apesar de contestar bastante o vice-campeonato no Brasileiro de 2005 (por conta dos escândalos da máfia do apito e da má atuação de Márcio Rezende de Freitas no jogo decisivo contra o Corinthians), o Inter voltava à Libertadores, competição que virou obsessão desde a conquista do Grêmio, em 1983.

Na decisão do Campeonato Gaúcho de 2006 contra o Grêmio, o favoritismo era colorado. Contudo, o Grêmio foi beneficiado pelo regulamento e ficou com o título. A torcida ficou revoltada e pediu a cabeça de Abel Braga. Fernando Carvalho resistiu às pressões e deu continuidade ao trabalho de Abel no comando da equipe.

A campanha do Inter na fase de grupos da Libertadores foi boa - pior só que a do Vélez Sarsfield. Mas o time não empolgava. Nas oitavas, uma parada dura. Os colorados enfrentariam o Nacional, time com tradição na Copa Libertadores. Além do mais, o confronto tinha um sabor especial para a torcida do Inter, já que os uruguaios foram responsáveis pela queda colorada na Libertadores de 1980. Na ocasião, Falcão, Batista e Mario Sérgio, após um empate sem gols no Beira-Rio, não puderam fazer nada e viram o Inter cair diante do Nacional em pleno estádio Centenário. Entretanto, o Nacional já não tinha a mesma força e o Inter se classificou para as quartas da competição.

O próximo adversário era a LDU, time que joga amparado pelos 2.800 metros de altitude. No primeiro jogo do mata-mata, em Quito, derrota por 2 a 1. Os dois times voltariam a se encontrar setenta dias depois. O Inter contou com o apoio da torcida no Beira-Rio e desbancou o time equatoriano com gols de Rafael Sóbis e Rentería.

Nas semifinais, o Inter teve o Libertad, do Paraguai, pela frente. Novamente, o Colorado esbarrava em sua história. Em 1989, o Internacional era treinado por Abel Braga e foi eliminado pelo também paraguaio Olímpia. Os gaúchos venceram a primeira partida, em Assunção, por 1 a 0. Na volta, um desastre: os paraguaios marcaram 3 a 2 no tempo normal e conseguiram nova vitória nas penalidades. Contra o Libertad, deu tudo certo para o Internacional. No Defensores del Chaco, um empate por 0 a 0. Em um Beira-Rio novamente lotado, uma vitória por 2 a 0. O Inter voltava a uma final de Libertadores.

A final era contra o São Paulo, adversário que vinha embalado pela conquista do terceiro título mundial, além das boas vitórias na própria Libertadores. Mas brilhou a estrela do gaúcho Rafael Sóbis no Morumbi. Com dois gols e uma atuação magnífica, ele deixou o Inter com uma mão na taça.

A segunda partida foi dramática. Fernandão abriu o placar. No começo do segundo tempo, Fabão empatou para o São Paulo. De cabeça, Tinga marcou o segundo gol. Logo depois, foi expulso pelo argentino Horácio Elizondo. Os 19 minutos finais foram difíceis para a torcida colorada. O São Paulo conseguiu, aos 40 minutos do segundo tempo, o empate com o gol de Lenílson. Os colorados resistiram por mais alguns minutos. Na comemoração, destaque para o choro de Abel Braga e a vibração de Fernandão. Representavam uma torcida que tinha um choro reprimido há longos 26 anos.

Após o término da Libertadores, o Inter perdeu algumas peças importantes: Sóbis, Tinga, Jorge Wagner e Bolívar foram para o futebol europeu. Mas o Inter não se abalou. Procurou novos jogadores e já visualizava a conquista do Mundial. Passou o segundo semestre inteiro se organizando para a competição mais importante de sua história. O Inter priorizou o Mundial, é verdade, mas conseguiu fazer um bom papel no Brasileiro, ficando novamente com o vice. Dessa vez, o vice foi até comemorado, já que os colorados terminaram na frente do Grêmio.

O Mundial se aproximava e o Internacional estava preparado. A dedicação do clube ao projeto era incrível. Um auxiliar de Abel Braga foi à África para ver o Al Ahly jogar contra o Sfaxien. O vencedor desse jogo enfrentaria o Inter nas semifinais do Mundial. O clube mostrou preocupação até com a alimentação dos jogadores, a ponto de fazer uma pesquisa detalhada sobre onde comprar carne vermelha no Japão. No fim, chegaram à conclusão de que a melhor opção era um frigorífico da Nova Zelândia. O problema era o preço: 150 reais o quilo. O investimento foi feito. Os jogadores colorados chegaram com antecedência ao Japão. A diretoria fez questão de colocar os jogadores em um vôo a Tóquio na primeira classe. Estima-se que o clube gastou cerca de 6 milhões de dólares no megaprojeto.

No dia 17 de dezembro de 2006, o mundo era vermelho. O Inter desbancou o poderoso Barcelona. Soube jogar contra a equipe catalã e levantou o caneco. O destaque da conquista foi o criticado Adriano Gabiru, autor do gol na final contra o Barcelona.

Essa geração colorada agora é referência na dentro do próprio clube. O grupo de 2006 conseguiu títulos que Falcão, Batista e Figueroa não conquistaram.

A administração de Fernando Carvalho também é referência dentro do Brasil. E chegou lá sem nenhum plano mirabolante, apenas administração profissional e transparente.

Fernando Carvalho deu lugar a Vitório Píffero, que dará continuidade ao trabalho feito nos últimos anos.

No período aqui retratado, o Internacional não foi apenas um time de futebol. Foi um grande clube.

Ícone

Na tarde de 7 de junho de 1997, ele tinha o coração do brasileiro em sua raquete. Aquele garoto alto, magricelo e extremamente carismático estava a um passo de escrever seu nome nas páginas de um esporte tido como nobre, o tênis.

Para contar a história de Gustavo Kuerten é preciso recorrer ao passado. Nascido em 1977, Guga, como é carinhosamente chamado, perdeu o pai, Aldo, logo aos nove anos. Além da morte do pai, teve que dar suporte ao irmão, Guilherme, portador de deficiênca mental e física. Diante de todas as dificuldades, Guga poderia ter escolhido outro caminho: o do crime, como fazem muitos outros jovens em nosso país. Mas Guga tinha um sonho, tinha um objetivo: queria brilhar no mundo do tênis profissional. Entretanto, o caminho até lá não foi fácil, até porque ele nascera em um país do terceiro mundo e com pouca (para não dizer nenhuma) tradição no tênis. Na época do surgimento do catarinense, o tênis brasileiro estava estagnado e não atraía patrocinadores. Persistente, Guga deu uma raquetada nas dificuldades e continuou em busca de seu objetivo. Gustavo Kuerten foi uma luz que nasceu sobre a égide do tênis verde e amarelo.

Naquela tarde de 7 de junho de 1997, tinha início a vitoriosa história do catarinense. Nesse dia, ele superou o espanhol Sergi Bruguera e conquistou o título de Roland Garros, um dos mais tradicionais do tênis.

Na cerimônia de premiação, seus olhos brilhavam e ele, emocionado, fazia um discurso em homenagem à família que sempre lhe deu todo o apoio.

No ano seguinte, já era admirado e conhecido pelo seu carisma, pela sua vasta cabeleira e, é claro, por suas roupas coloridas.

Nos anos subseqüentes, foram inúmeros títulos, muitas premiações, belas mulheres e muito (muito, mesmo!) dinheiro.

Em 2000, Guga se consolidou na elite do tênis mundial, conquistando novamente o título de Roland Garros. No fim do ano, na Masters Cup - torneio que reúne os oito melhores tenistas do mundo -, o "surfista dourado" conseguiu o inimaginável: levou o Brasil ao topo do tênis, foi simplesmente o número um do mundo.

Considerado também o melhor jogador do mundo sobre o saibro na época, Guga levou o caneco do torneio francês para casa mais uma vez. Adorado por todos, ele não fez com que a fama subisse à cabeça. Pelo contrário, já que continuava, mesmo milionário e famoso, atendendo a todos com a mesma simpatia.

No final de 2001, Guga já se queixava de dores na região do quadril, o que o levou a passar por uma cirurgia. Ele, entretanto, nunca mais foi o mesmo. O seu físico o impossibilitou de prosseguir seu caminho de vitórias e conquistas. Kuerten ainda não oficializou sua aposentadoria, mas fica a impressão de que o fim de sua brilhante carreira está próximo.

Teremos sempre em nossas memórias aquele brasileiro que, ao ganhar Roland Garros pela terceira vez, desenhou um coração no meio da quadra Philippe Chatrier e se deitou sobre ele, em um ato de reverência ao público que tanto lhe apoiou. Pensaremos sempre naquele garoto que carregou a bandeira do Brasil na cerimônia de premiação da Masters Cup. Por fim, Guga é daqueles que vêm de tempos em tempos. Vai deixar saudade.