domingo, 24 de fevereiro de 2008

Leão no Bola da Vez

Emerson Leão, atual técnico do Santos, esteve nos estúdios da ESPN Brasil na segunda-feira para gravar o programa Bola da Vez. Lá, ele foi sabatinado por Paulo Vinícius Coelho, Paulo Soares, Paulo Calçade, Mauro Cezar Pereira e João Palomino. Conhecido por seu temperamento difícil diante da imprensa, Leão foi atencioso e, apesar de ter discorrido sobre temas complicados, estampou um sorriso no rosto durante boa parte da entrevista.

O primeiro assunto, obviamente, foi a fase desagradável de sua equipe. “O Santos tem que começar a vencer. E como isso vai acontecer? Com muita dedicação”, afirma Leão, mostrando o caminho para reverter a situação. A receita, em um primeiro instante, parece simples. Mas não é. Segundo ele, o Santos vai ter muitas dificuldades em 2008. Motivos não faltam: a realidade financeira do clube é bem diferente em relação aos anos anteriores, o ambiente político anda conturbado e o elenco é fraco. Logo em seguida, disse, metaforicamente, que não tem nenhuma culpa pela fase ruim. Motivação também não falta a Leão: ele está disposto a tirar o Peixe dessa situação incômoda, até porque é uma das últimas chances para recuperar seu status de treinador de ponta.

Ao longo de seus 44 anos de futebol (24 como goleiro e 20 como treinador), Leão acumulou muitos trabalhos vitoriosos e alguns dissabores. Nos últimos tempos, ele vem sendo chamado para dirigir times que lutam contra o rebaixamento. Foi assim em 2005, no Japão, onde ele comandou um clube que ocupava a zona de risco no campeonato local, o Vissel Kobe. No ano seguinte, assumiu o Corinthians na última colocação do Campeonato Brasileiro e levou a equipe até a Copa Sul-Americana. Acabou saindo do clube paulista após uma série de atritos com jogadores e jornalistas e com a imagem muito desgastada. Em 2007, foi para o Atlético-MG com a missão de livrar o clube da queda. Conseguiu deixar o Galo em uma posição razoável, garantindo novamente a Sul-Americana.


Percebe-se que Leão tem convivido com o perigo, é o “prazer do risco”, como ele gosta de definir. O treinador, portanto, refuta a idéia de que esteja em decadência, assim como nega que consegue o respeito dos jogadores através da intimidação. O problema é que Leão continua recebendo o rótulo de treinador autoritário. Em pouco mais de dois meses, já teve alguns desentendimentos no Santos: discutiu com figuras importantes, como Fábio Costa e Kléber Pereira, e cortou algumas regalias dos jogadores, o que provocou o descontentamento de grande parte do elenco.

Por outro lado, Leão demonstra muita preocupação com os jovens talentos do futebol brasileiro. O tema, aliás, foi discutido exaustivamente no programa. De acordo com o treinador, os empresários atuam de forma desleal. Prometem uma série de bens materiais para a família dos jovens e passam a controlar suas carreiras. Wagner Ribeiro, empresário com quem trocou farpas neste ano, é um dos alvos prediletos de seus rugidos. Apenas um encontro foi suficiente para gerar toda essa antipatia entre os dois.

Vale lembrar que Wagner Ribeiro, que ganhou notoriedade por ser o empresário de Robinho, aproximou-se de Tiago Luís ainda neste ano. Não demorou muito para a o jornal Marca apontar o atacante santista como “o novo Messi”. Leão, vendo que a notícia havia sido plantada, decidiu interferir. Foi até o jogador e comunicou que o afastaria para que pudesse definir seu futuro. Não demorou muito para o atacante deixar bem claro que gostaria de continuar no Santos.

Mais tarde, o treinador decidiu afastar momentaneamente Tiago Luís e Alemão. “Pareciam duas crianças deslumbradas na Colômbia, era como se estivessem na Disneylândia", explicou. O afastamento serviu para que os garotos refletissem sobre aconteceu no último mês (foram promovidos ao time profissional, chegaram a fazer boas partidas e passaram a lidar com a fama). Orgulhoso por proteger os pupilos, o comandante revelou que Tiago Luís recebeu três propostas vindas da Espanha.

Preocupado com o futuro do clube, o treinador já chegou a fazer projeções para saber quanto o Santos vai desembolsar até que Neymar, garoto de 15 anos que vem arrebentando nas categorias de base, possa estrear. De acordo com suas estimativas, Neymar custará cerca de 7 milhões de reais ao Peixe até completar 18 anos.

Quando fala sobre o potencial da nova geração de jogadores do Santos (Paulo Henrique, Wesley, Tiago Luís, Alemão, Carleto, Filipi e Anderson Salles), o técnico adota postura cautelosa. “Esqueçam Robinho e Diego”, diz.

Apesar de mostrar preocupação com o clube freqüentemente, parte da mídia diz que Leão é um técnico ultrapassado. Ignora a parte tática e as inovações no futebol, como psicologia esportiva e fisiologia. Todos concordam que o treinador está em decadência. Embora não perceba, Leão deixou de ser a bola da vez.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

O caos no Santos

O presidente do Santos, Marcelo Teixeira, foi do céu ao inferno em pouco mais de dois meses. No dia 25 de novembro de 2007, o Peixe, comandado por Vanderlei Luxemburgo, selou sua classificação para a Copa Libertadores com uma virada espetacular sobre o Paraná. Os três gols de Kléber Pereira na partida garantiram a quinta participação do clube na principal competição continental em seis anos. Como se não bastasse, Teixeira, após bater Paulo Schiff nas urnas, ganhou mais dois anos no poder. Quase dois meses depois, a situação é bem diferente.

A série de péssimos resultados no início de 2008 (são três derrotas em cinco jogos) instalou o caos na Vila Belmiro. Depois das derrotas para Portuguesa e Juventus, os muros do CT Rei Pelé transformaram-se em um espaço para as lamentações de torcedores (pichações como “Isso é humilhação” e “Vergonha” foram registradas). Lá, estavam também inscrições que pediam as saídas de Leão e Betão. Engana-se quem pensa que Marcelo Teixeira foi poupado, pelo contrário. É ele o principal alvo da fúria da torcida santista. Na partida contra o Palmeiras, ele viu muitos torcedores (que já tinham protestado na estréia do time no Paulistão) exigindo contratações; outros, mais exaltados, ofendiam o mandatário e questionavam o paradeiro do dinheiro arrecadado com as vendas de Robinho, Diego, Elano, Alex e Leonardo. Logo após o vexame diante do Barueri, mais cobrança. Além de protestarem nas arquibancadas, torcedores tentaram invadir a sala da presidência.

Para os santistas mais críticos, o quadro atual era previsível. A ida de Kléberson para o Flamengo (o jogador esteve com um pé na Vila Belmiro), a falta de contratações entre o fim do Brasileirão e o início do Campeonato Paulista e a saída de Luxemburgo (a permanência do técnico era uma das promessas de Teixeira na época das eleições) foram fortes indícios de que os cofres estavam vazios.

Alguns anos depois de receber dezenas de milhões de reais pela venda da geração campeã brasileira de 2002, o Peixe mostra que não tem mais recursos para investir em contratações, o que acaba frustrando os torcedores. Fica a pergunta: como o Santos gastou tanto dinheiro em tão pouco tempo?

Apesar da cortina de fumaça criada pelo presidente santista, acredita-se que parte do dinheiro tenha sido torrada com salários exorbitantes pagos a Luxemburgo e a alguns jogadores, contratações equivocadas e construções inúteis (o que são aqueles camarotes térreos às moscas?).

Segundo Marcelo Teixeira, a má situação financeira do clube pode ser facilmente explicada com os investimentos em estrutura. É sempre bom lembrar que o Santos melhorou bastante nesse sentido, afinal, construiu um hotel que serve como concentração para os jogadores, o Memorial das Conquistas e o CT Meninos da Vila para as categorias de base. Sem falar nas melhorias no CT Rei Pelé e na inauguração do Cepraf, um centro de recuperação de atletas. O grande problema é que a diretoria não fez a prestação de contas disso tudo. Em outras palavras: ninguém sabe quanto foi desembolsado nas obras citadas acima. Para agravar a situação, os conselheiros não usam a tribuna do conselho, em reuniões periódicas, para contestar a falta de transparência da diretoria.

Outra prova de que a diretoria errou bastante foi a folha salarial do Peixe nos últimos anos. Vanderlei Luxemburgo tinha excesso de autonomia no departamento de futebol e ainda recebia 500 mil reais por mês. Pelos dois anos na Vila, recebeu 12 milhões. O contestado Adaílton chegou recebendo 180 mil reais, mas, posteriormente, viu seu salário ser reduzido para 144 mil. E não acaba aí: a comissão técnica de Luxemburgo custava 400 mil aos cofres do clube.

A conduta de Luxemburgo, aliás, deve ser criticada. Mas isso fica para outra ocasião.

Não é exagero dizer que Marcelo Teixeira é incompetente e que ele é cercado por gente incompetente. Como não tem competência para comandar o Santos, acaba contratando treinadores centralizadores (como Luxemburgo e Leão), que acabam mandando até nas camareiras do CT Rei Pelé. E quem sai no prejuízo com tudo isso é o clube.

Hoje, podemos perceber que foi necessário dar tudo errado dentro de campo para que a torcida olhasse para a política do clube. Antes dos dissabores no Paulistão, eram poucos os torcedores que questionavam Marcelo Teixeira, embora estes o fizessem de forma fervorosa.

O Santos poderia olhar para os rivais São Paulo, Corinthians e Palmeiras. O São Paulo apostou em administração profissional e transparente e vem conseguindo ótimos resultados. Corinthians e Palmeiras viram seus presidentes (Alberto Dualib e Mustafá Contursi, respectivamente) perpetuando-se no poder e foram rebaixados. Cabe ao Santos escolher qual caminho quer trilhar. É hora de seus torcedores entrarem em ação. Antes que seja tarde.