terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Da porta do inferno ao topo do mundo

Em outubro de 2002, a situação do Internacional era crítica. O mesmo Internacional que conquistou o Brasil três vezes na década de 70. O Internacional do “Rolo Compressor” dos anos 40. O Internacional que teve Falcão e Figueroa. Atolado em dívidas e sem títulos, o Colorado estava quase caindo para a série B. Se salvou apenas na última rodada, contra o Paysandu. Era uma situação pré-falimentar.

Com o clube em crise, o presidente do clube, Fernando Carvalho, deve ter ficado em dúvida sobre a decisão que havia tomado alguns meses antes. Ele assumiu, no início de 2002, a presidência do Internacional. Fernando Carvalho queria que o Internacional voltasse a ser grande. Engana-se quem pensa que ele, por estar em um meio que envolve paixão e pressão, apelou para grandes contratações. A torcida, cansada dos resultados ruins do clube, exigia grandes jogadores. Ciente das dificuldades do Inter, Carvalho não caiu em tentação. Apostou nas divisões de base e em desconhecidos. Além disso, percebeu que o Colorado, para não fechar o ano no vermelho, precisava vender dois ou três jogadores por temporada.

Em 2003, o Brasil viu o surgimento de dois futuros craques: Nilmar e Daniel Carvalho. Enquanto isso, Fernando Carvalho viu a necessidade de trabalhar com a auto-estima do torcedor colorado. Por conta da má fase do clube, muitos torcedores estavam começando a abandonar o barco. A direção do Inter, preocupada com a situação, quis reverter essa situação. Foi então que Fernando Carvalho entrou em contato com a E21, agência que iniciou uma campanha publicitária para chamar o torcedor colorado para cada jogo.

A diretoria tinha o objetivo de modernizar o Beira-Rio, até para atrair mais torcedores e, é claro, tornar o estádio uma fonte de receitas sólida e constante. Os resultados foram surpreendentes. Em 2001, o Inter tinha pouco mais de 8 mil sócios. Atualmente, são cerca de 44 mil sócios, que contribuem com cerca de 20 reais. Por esse valor, o associado pode entrar no Beira-Rio em todos os jogos e votar nas eleições do clube. Há ainda uma série de promoções e vantagens.

Voltando ao futebol, pode-se dizer que o Internacional teve apenas dois técnicos nos últimos anos: Muricy Ramalho, comandante do time na boa campanha no Brasileiro de 2005, e Abel Braga. Os resultados alcançados nos últimos anos estão diretamente relacionados à confiança que a diretoria colorada dá aos técnicos e jogadores. Os dirigentes se preocupam com cada detalhe. Prova disso é que o Inter é o único clube brasileiro que tem uma pessoa contratada para receber jogadores. Trata-se de Patrícia Lague, que ajuda os jogadores e suas famílias de diferentes formas. Foi assim com Hidalgo, que recebeu a ajuda de Patrícia para encontrar uma escola para seus filhos com a mesma linha da escola anterior. Ela também ajudou Fernandão, que, logo quando chegou ao clube, precisou de ajuda para internar um de seus filhos. Na ocasião, Fernandão estava viajando e Patrícia foi uma das responsáveis pela internação. Por todas essas razões, o clube gaúcho voltou a ser atraente para jogadores.

Apesar de contestar bastante o vice-campeonato no Brasileiro de 2005 (por conta dos escândalos da máfia do apito e da má atuação de Márcio Rezende de Freitas no jogo decisivo contra o Corinthians), o Inter voltava à Libertadores, competição que virou obsessão desde a conquista do Grêmio, em 1983.

Na decisão do Campeonato Gaúcho de 2006 contra o Grêmio, o favoritismo era colorado. Contudo, o Grêmio foi beneficiado pelo regulamento e ficou com o título. A torcida ficou revoltada e pediu a cabeça de Abel Braga. Fernando Carvalho resistiu às pressões e deu continuidade ao trabalho de Abel no comando da equipe.

A campanha do Inter na fase de grupos da Libertadores foi boa - pior só que a do Vélez Sarsfield. Mas o time não empolgava. Nas oitavas, uma parada dura. Os colorados enfrentariam o Nacional, time com tradição na Copa Libertadores. Além do mais, o confronto tinha um sabor especial para a torcida do Inter, já que os uruguaios foram responsáveis pela queda colorada na Libertadores de 1980. Na ocasião, Falcão, Batista e Mario Sérgio, após um empate sem gols no Beira-Rio, não puderam fazer nada e viram o Inter cair diante do Nacional em pleno estádio Centenário. Entretanto, o Nacional já não tinha a mesma força e o Inter se classificou para as quartas da competição.

O próximo adversário era a LDU, time que joga amparado pelos 2.800 metros de altitude. No primeiro jogo do mata-mata, em Quito, derrota por 2 a 1. Os dois times voltariam a se encontrar setenta dias depois. O Inter contou com o apoio da torcida no Beira-Rio e desbancou o time equatoriano com gols de Rafael Sóbis e Rentería.

Nas semifinais, o Inter teve o Libertad, do Paraguai, pela frente. Novamente, o Colorado esbarrava em sua história. Em 1989, o Internacional era treinado por Abel Braga e foi eliminado pelo também paraguaio Olímpia. Os gaúchos venceram a primeira partida, em Assunção, por 1 a 0. Na volta, um desastre: os paraguaios marcaram 3 a 2 no tempo normal e conseguiram nova vitória nas penalidades. Contra o Libertad, deu tudo certo para o Internacional. No Defensores del Chaco, um empate por 0 a 0. Em um Beira-Rio novamente lotado, uma vitória por 2 a 0. O Inter voltava a uma final de Libertadores.

A final era contra o São Paulo, adversário que vinha embalado pela conquista do terceiro título mundial, além das boas vitórias na própria Libertadores. Mas brilhou a estrela do gaúcho Rafael Sóbis no Morumbi. Com dois gols e uma atuação magnífica, ele deixou o Inter com uma mão na taça.

A segunda partida foi dramática. Fernandão abriu o placar. No começo do segundo tempo, Fabão empatou para o São Paulo. De cabeça, Tinga marcou o segundo gol. Logo depois, foi expulso pelo argentino Horácio Elizondo. Os 19 minutos finais foram difíceis para a torcida colorada. O São Paulo conseguiu, aos 40 minutos do segundo tempo, o empate com o gol de Lenílson. Os colorados resistiram por mais alguns minutos. Na comemoração, destaque para o choro de Abel Braga e a vibração de Fernandão. Representavam uma torcida que tinha um choro reprimido há longos 26 anos.

Após o término da Libertadores, o Inter perdeu algumas peças importantes: Sóbis, Tinga, Jorge Wagner e Bolívar foram para o futebol europeu. Mas o Inter não se abalou. Procurou novos jogadores e já visualizava a conquista do Mundial. Passou o segundo semestre inteiro se organizando para a competição mais importante de sua história. O Inter priorizou o Mundial, é verdade, mas conseguiu fazer um bom papel no Brasileiro, ficando novamente com o vice. Dessa vez, o vice foi até comemorado, já que os colorados terminaram na frente do Grêmio.

O Mundial se aproximava e o Internacional estava preparado. A dedicação do clube ao projeto era incrível. Um auxiliar de Abel Braga foi à África para ver o Al Ahly jogar contra o Sfaxien. O vencedor desse jogo enfrentaria o Inter nas semifinais do Mundial. O clube mostrou preocupação até com a alimentação dos jogadores, a ponto de fazer uma pesquisa detalhada sobre onde comprar carne vermelha no Japão. No fim, chegaram à conclusão de que a melhor opção era um frigorífico da Nova Zelândia. O problema era o preço: 150 reais o quilo. O investimento foi feito. Os jogadores colorados chegaram com antecedência ao Japão. A diretoria fez questão de colocar os jogadores em um vôo a Tóquio na primeira classe. Estima-se que o clube gastou cerca de 6 milhões de dólares no megaprojeto.

No dia 17 de dezembro de 2006, o mundo era vermelho. O Inter desbancou o poderoso Barcelona. Soube jogar contra a equipe catalã e levantou o caneco. O destaque da conquista foi o criticado Adriano Gabiru, autor do gol na final contra o Barcelona.

Essa geração colorada agora é referência na dentro do próprio clube. O grupo de 2006 conseguiu títulos que Falcão, Batista e Figueroa não conquistaram.

A administração de Fernando Carvalho também é referência dentro do Brasil. E chegou lá sem nenhum plano mirabolante, apenas administração profissional e transparente.

Fernando Carvalho deu lugar a Vitório Píffero, que dará continuidade ao trabalho feito nos últimos anos.

No período aqui retratado, o Internacional não foi apenas um time de futebol. Foi um grande clube.

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